
Aqui no meu pequeno mundo as semanas correm e os meses voam. Aqui não demora e é natal. Não tarda e é 2008. Abrem-se os olhos e já chegaram os 30. Aqui no meu pequeno mundo os dias começam sempre às 8h, exceto aos domingos. No meu pequeno mundo sempre há música. Nos ouvidos ou na boca. Também no chuveiro e na cama. Cantarolar Um Simples Abraço(Nando Reis), por exemplo, já virou praxe. Aqui vale o ditado que preconiza que quem canta seus males espanta. Igualmente vale a filosofia de Bliss: a realidade que nos perdoe, mas fantasia é fundamental. E comprova-se, como em nenhum outro lugar, a máxima viniciana de que a realidade nada mais é do que uma forma encarnada de ficção. Aqui come-se pouco. Exceto os doces .Bebe-se muita água. As escolhas nunca são fáceis. Ainda que seja para escolher um xampu,haverá sempre um drama considerável. Há um monstro à espreita. Uma monstra, para ser mais exata. Chama-se Neurose. Precisa ser encarada, enfrentada e destruída. E o duelo é iminente. Daqui contempla-se o grande mundo. Mantém-se uma certa distância regulamentar de tudo (ou quase tudo). Desaconselham-se as saídas desnecessárias. De modo que é raro que haja exposição dispensável de minha figura. Confere-se o Orkut e o e-mail com regularidade para garantir a comunicação com gente querida. Dá-se notícias através de um diário eletrônico. À propósito, no meu pequeno mundo há sempre um livro de Bandeira e Dobal na cabeceira. E também um de Quintana. Porque poesia é tão importante por aqui quanto o ar. E porque é preciso que haja beleza em tudo, mesmo na dor. Aqui no meu pequeno mundo sente-se saudades de pessoas, de lugares e de épocas. Também sente-se saudades do que não foi vivido. Sobretudo do que já se sabe de antemão que não será vivido. Aqui o presente sempre parece menos importante do que é. Ainda que hajam avisos por todas as partes para não esquecê-lo. Aqui o tempo é a entidade mais respeitada. A autoridade mais temida. A observação mais fascinante. Aqui no meu pequeno mundo todo o passado é embalsamado. Todo o vivido fica sacramentado em meu coração como numa música de Djavan. E tudo o que vem é esperado como se espera alguém importante no aeroporto. Com o coração meio na mão e a respiração meio suspensa. Amigos visitam com freqüência, mas, de alguma forma, sabem que há quase sempre uma vassoura imaginária atrás da porta (a menos que sejam eles que estão precisando de colo). Uma certa solidão por aqui é condição sine qua non de sobrevivência. Não tanta que atraia a tristeza. Apenas a necessária para não perder o vazio. Porque perder o vazio, definitivamente, é empobrecer. Aqui no meu pequeno mundo junho se apresenta conforme o script. E quando junho se for meu pequeno mundo terá dado mais uma volta ao redor de si mesmo...